- Eu pensei dez vezes, ia quebrá-lo todo. No lance que ele ia tentar dar a carretilha, eu ia grudá-lo na tela. Uma coisa que eu não admito é falta de respeito, e Neymar estava faltando com respeito. Ele não precisa disso, não precisa fazer graça. Por isso, admiro o Ronaldinho Gaúcho e o Ronaldo Fenômeno. Sempre jogaram o futebol que jogaram sem menosprezar ninguém - declarou Nunes.
Com essa declaração digna do pior jogador da pelada, aquele que sempre é escolhido por último, Nunes mostra o quanto o futebol caminha pra virar uma chata partida de tênis (perdão aos que gostam do esporte). Acompanho futebol desde criança e, durante esse tempo, passei a admirar duas figuras opostas dentro das quatro linhas. Tão opostas que um não existe sem o outro. Não existe o brucutu sem o craque e, menos ainda, existe o craque sem o brucutu. Já pensou como seria chata uma partida com um goleiro e o resto do time formado somente por Ronaldinho, Neymar, Garrincha, Ronaldo, Romário, entre outros craques? Dribles e mais dribles, golaços e mais golaços, tudo isso viraria uma coisa comum e perderia a graça. Por que seria interessante ver um gol de bicicleta de fora da área, como o de Ibrahimovic, dia desses, se todo jogo tivesse pelo menos um ou dois desses? É aí que entra a importância dos brucutus. Pra um craque sobressair, tem que existir, pelo menos um jogador grosso em campo. Sabe aquele volante ou aquele zagueiro que, salvo raras exceções, ou passa o jogador ou passa a bola? São esses jogadores que dão fama aos craques e fazem os craques serem vistos como jóias. E todo mundo gosta de ter um jogador assim no time. Vai dizer que você nunca comemorou uma pancada do seu zagueiro bem no joelho do atacante folgado driblador do rival? Eu já, e muito! Torcedor também gosta disso. O adversário vem driblando todo mundo e, atrás dele, o defensor correndo feito um cachorro raivoso, até dar aquele carrinho que desmantelaria qualquer pessoa comum. Já comemorei um lance desse como se fosse gol, e ainda reclamei da expulsão, claro! E sei que você, se tem um time de coração, também.
Pois bem, eu tenho agonia de ler uma declaração como a de Nunes. Por dois motivos simples. Primeiro porque não existe isso de desrespeito com a bola rolando. Ele pode fazer isso, é legal de ver, a torcida gosta, todo mundo gosta, menos o brucutu que levou o drible. E esse negócio de “tem que ser objetivo” é uma das maiores chatices do futebol atual. Se futebol fosse objetivo durante os 90 minutos, todo jogo terminaria pelo menos com uns 6 gols, e o que a gente mais vê é 0 x 0 com dois times retrancados. E, pra piorar, além de chorão, Nunes joga na lama todo o legado dos brucutus ídolos, representados por jogadores como os que lembro agora, Dinho, Materazzi, Batata e Sandro Goiano, que nessa lista estão todos num bolo só, não divididos em níveis de “brucutuzisse”. Sim, porque brucutu que é brucutu não pensa, ele leva o drible e bate pra quebrar o craque. E pra piorar, Nunes pensou e não bateu. O futebol fantasiado de tênis está acabando até com a liberdade de um jogador bater em outro em campo.
Nunes, portanto, pelo menos pra mim, já pode ganhar o troféu de jogador mais sem graça do Brasil: nem é craque, nem é brucutu. Tão sem graça quanto assistir a um jogo sentado numa poltrona acolchoada.
Texto gentilmente cedido ao blog por Luiz Carlos Pires, nosso amigo alvirrubro reclamão do facebook.




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